20 de Novembro- Dia da Consciência Negra

Zumbi

 Dia 20 de novembro: vamos empretecer o Leblon, as universidades, o parlamento, as prateleiras das livrarias, os meios de comunicação, as ruas de toda a cidade, a história oficial do Brasil. Vamos sair dos espaços que a sociedade racista quer que nós fiquemos e vamos nós, negros brasileiros, escolhermos que espaços queremos ocupar. Temos um navio negreiro lotado de contas para acertar.

Sem essa de que somos pobres coitados que necessitam da generosidade de um senhor branco marido da sinhá para nos libertar, contar nossa história ou nos servir de porta-voz, contamos nós mesmos, de dentro da nossa pele a beleza e a força de sermos negros, um povo que sobreviveu a toda a crueldade da escravidão e permaneceu criando, lutando, resistindo.

Nosso 20 de novembro, data de morte de um herói que lutou e conseguiu a libertação de um povo, não é reconhecida porque a elite racista de nosso país não quer reconhecer a sua dívida com o povo negro, não quer se desfazer de seus privilégios para realizar a divisão de tudo aquilo a que temos direito. Mesmo assim, permaneceremos lutando e dançando, como fazem nossos orixás ao tomarem os nossos corpos.

Lélia Gonzalez

Um negro não se faz guerreiro, mas já assim nasce, pois luta contra tudo e todos para chegar à luz do mundo que o espera, por isso não temos medo e quanto maior a resposta racista maior será nosso empenho de continuar.

Temos em nossa memória ativa Zumbi, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzales, Dandara, Ganga Zumba e todos os negros escravizados que lutaram pela liberdade dos negros da diáspora e da África.


Abdias do Nascimento

OLHANDO NO ESPELHO
(Para meus netos Samora, Alan e Henrique Alberto)

Ao espelho te vejo negrinho
te reconheço garoto negro
vivemos a mesma infância
a melancolia partilhada do teu profundo olhar
era a senha e a contra-senha
identificando nosso destino
confraria dos humilhados
a povoar de terna lembrança
esta minha evocação de Franca

Éramos um só olhar
nos papagaios empinados
ao sopro fresco do entardecer

Negrinho garota negra
vivemos a mesma infância
nos cafezais brincamos
nas jaboticabeiras trepamos
chupamos a mesma manga e melancia

Éramos uma única ansiedade
à subida multicor dos balões
pejados de nossos sonhos e ilusões
Negrinho meu irmão
como te chamavas tu?
Felisbino Sebastião Geraldo?
Serias menina: Rosa
Negra Alice Tarcila?
Ou te chamarias Aguinaldo?

Lembro nosso emprego:
lavar vidros
entregar remédios
fazer limonada purgativa
limpar as sujeiras de uma farmácia

E aquele grito em nosso ouvido:
“-Acorda preguiçoso”? era o patrão
outra vez cochilaste reclinado ao chão
Assustados teus olhos dançaram
desgovernados pelas lágrimas
saltaste inutilmente lépido

Um dedo irrevogável
te apontou a porta do desemprego
assim regressaste
à casa que já não tinhas
na noite anterior morrera
tua pobre mãe que a mantinha

Negrinha garoto negro
sei que somos uma
prosseguimos os mesmos
ao abandono de nossa orfandade

Assim juntos e sem nome
devemos continuar nosso sonho
nosso trabalho
reinventando as nossas letras
recompondo nossos nomes próprios
tecendo os laços firmes
nos quais ao riso alegre do novo dia
enforcaremos os usurpadores de nossa infância

Para a infância negra
construiremos um mundo diferente
nutrido ao axé de Exu
ao amor infinto de Oxum
à compaixão de Obatalá
à espada justiceira de Ogum

Nesse mundo não haverá
trombadinhas
pivetes
pixotes
e capitães de areia

Buffalo, 1980

Oça esse poema na voz de Abdias: http://www.abdias.com.br/poesia/3_Abdias_espelho.wav

Kizomba, A Festa Da Raça

Luiz Carlos da Vila

Valeu, Zumbi
O grito forte dos Palmares
Que correu terra, céus e mares
Influenciando a abolição
Zumbi, valeu
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jongo e Maracatu
Vem, menininha
Pra dançar o Caxambu

Ô,ô, Ô,ô
Nega mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô,ô
Ô,ô,ô,ô
Clementina, o pagode é o partido popular
Sacerdote ergue a taça
Convocando toda a massa
Neste evento que congraça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção

Esta Kizomba é nossa constituição
Esta Kizomba é nossa constituição

Que magia
Reza, ajeum e Orixá
Tem a força da cultura
Tem a arte e a bravura
E o bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais

Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede e nossa sede
De que o aparthaid se destrua

Ouça esse samba na voz do seu compositor, Luiz Carlos da Vila: http://www.youtube.com/watch?v=ELJpqxL3SWI&feature=related

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