Literatura

bandelê

BANDELÊ

Dizem que Bandelê tem uma serpente nos olhos e nem quando ele dorme ela adormece.
Essa serpente é como um vigia: observa sempre o que falam, percebe sempre os sutis movimentos dos outros e desvenda até os pensamentos mais íntimos e obscuros de um ser humano.
Bandelê é um menino negro.

Dizem que essa é a característica do povo dessa cor, mas ele não sabe responder, só sabe dizer que desde que nasceu desconfia de tudo e que não sabe dormir sem deixar acordada a serpente. Seus olhos se fecham, mas nunca dormem.
A serpente de Bandelê vê a verdade nos homens, nas mulheres, nas entradas e nas saídas, e em cada situação pela qual passa, mas fica calada, guardando seu veneno.
Houve um tempo em que essa serpente mostrava sua longa e fina língua para todos os que passavam, mas hoje ela só aparece para quem realmente acha necessário.
O bicho não dá um descanso a Bandelê, e até quando ele não olha, ela escuta, e tortura o menino com os mais hediondos sonhos, os mais belos pesadelos, com as mais loucas alucinações.
Há muita verdade nos olhos que habitam essa serpente e muito veneno também. Quando seus olhos se irritam com o veneno da cobra, o menino não chora, senta e compõe músicas que fazem acalmar a serpente, e ela dança, dança loucamente nos olhos de Bandelê até
se acalmar.
E nesses dias em que canta, acalmando a serpente, ele consegue dormir e sonhar com flores e sóis, luas e risos. E quando ouve as risadas vindas dos sonhos do músico, a serpente acorda de seu transe, de um só sobressalto, levanta atacando o primeiro que passa, só para
lembrar que, ainda, tem muito veneno em si.

Texto de Débora Almeida

Cadernos Negros 32- Antologia de Contos/ Quilombhoje/ São Paulo/ 2009

 

LIMPANDO A CASA

Tirar as coisas do lugar
Rearrumar
Limpar
Tirar a poeira que escondia o brilho
Ver que o que não prestava ainda estava ali

Ir em frente
Com as sacolas cheias
Deixá-las sem olhar para trás
Cada faxina é como um novo ano novo.

De quando você volta pra casa, 500 anos depois e sente como se tivesse saído ontem. Assim foi minha experiência com o Senegal, a minha terra mãe.

Senegal

No Senegal me sinto entre os meus
A diáspora invertida rumo aos meus irmãos de cor
Me vejo nas ruas, nas páginas de revista, nos cartazes e na arte
No comercial de café, o negro não aparece amassando os grãos como escravo
No comercial de café, o negro aparece saboreando o café
Na tv ele não é o servo, ele é o dono da casa
Aqui o negro está em toda a parte e não somente na periferia.

Pequeno poema sobre o mar da África

O mar da África é natureza e memória
O mar da África é a saudade dos meus antepassados retornando da América.


PUBLICAÇÕES 2009- CADERNOS NEGROS 32- Antologia de contos organizada pelo selo Quilombhoje Autora do conto: “Bandelê”
Literatura Dramática2009- Sete Ventos- monólogo em um ato2008- Beatriz- autora
2007- Silêncio (colaboradora dramatúrgica)2005- Bakulo- Os Bem Lembrados (colaboradora dramatúrgica) 2004- Quatro Bancos e Uma Rosa (co-autora) 2003- Candaces- A Reconstrução do Fogo (colaboradora dramatúrgica) 2001- A Roda do Mundo (colaboradora dramatúrgica)
Roteiro para vídeo 2008- A CArtomante- baseado em conto homònimo de Machado de Assis 2002- Registro

Lançamento  de Cadernos Negros 32 em São Paulo- em 16 de dezembro de 2009Autora do conto Bandelê

Oa autores: José Luanga, Cristiane Sobral, Débora Almeida, Cuti , Elizandra Souza e o ator Marcos Xavier (entre Débora e Cristiane)

Autores de CN 32; Ademiro Alves (Sacolinha), Cristiane Sobral, Cuti, Débora Almeida, Dirce Pereira Prado, Elizandra Souza, Fátima Trinchão, Fausto Antônio, Hélio Penna, Jônatas Conceição (in memoriam), José Luanga, Mel Adún, Michel Yakini, Paulo gonçalves, Serafina Machado, Sérgio Ballouk, Sidney de Paula oliveira e Valdomiro Martins.

LITERATURA DRAMÁTICA 2009- SETE VENTOSEspetáculo teatral baseado em depoimentos de mulheres negras e no mito de Iansã.COLABORADORA DRAMATÚRGICA DOS ESPETÁCULOS: “A Roda do Mundo“(2001), “Candaces- A Reconstrução do Fogo”(2003), “Bakulo- Os Bem Lembrados”(2005), “Silêncio”(2007) e “O Sonho Nosso de Cada Dia“(2006). 2000- “CLARA”- Espetáculo teatral encenado pela Cia Elo de Teatro; ROTEIRO PARA CINEMA E VÍDEO

2008- “A CARTOMANTE“- curta-metragem basedo em conto homônimo de Machado de Assis
2005- “REGISTRO“- curta-metragem realizado pela Cia Elo de Teatro

BLOGS

Edita os blogs Borboleta Avoada ( www.borboletaavoada.blogspot.com ) e A Moça do Segundo Andar( www.amocadosegundoandar.wordpress.com ).

ALGUMAS COISAS DAS QUAIS TENHO CERTEZA
se eu não fosse atriz

iria querer ser atriz

se eu não fosse filha da minha mãe

pediria pra ser filha dela

se eu não fosse mulher

trocaria de sexo

se eu não morasse no Rio

me mudaria pra cá

ainda bem que antes de nascer eu entrei nas filas certas

Do blog:  borboletaavoada.blogspot.com

2 pensamentos sobre “Literatura

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